Conflito no varejo não nasce das pessoas. Nasce do modelo.
No varejo, o conflito quase nunca é comportamento. É desenho errado de metas e incentivos. Neste artigo, você vai entender por que isso acontece e como líderes transformam rivalidade interna em cooperação e resultado.
Gustavo Cruz
1/7/20263 min read


No varejo, conflitos costumam ser explicados de forma rasa.
“A loja não veste a camisa.”
“O time não é colaborativo.”
“O problema é comportamento.”
Mas a psicologia social já mostrou, há mais de 70 anos, que essa leitura é incompleta. Um experimento clássico conduzido por Muzafer Sherif ajuda a entender por que tantos varejistas vivem apagando incêndios internos sem nunca resolver a causa real do problema. A principal conclusão é simples e desconfortável: pessoas não entram em conflito porque querem; elas entram em conflito porque o sistema empurra para isso.
Quando o modelo de gestão cria o problema
No experimento, dois grupos que não se conheciam foram colocados em um mesmo ambiente. Primeiro, cada grupo fortaleceu sua identidade interna. Até aqui, tudo saudável. O conflito surgiu quando o ambiente foi redesenhado para criar competição direta por recursos limitados. Bastou isso para aparecer rivalidade, hostilidade e comportamentos agressivos. As pessoas eram as mesmas. O que mudou foi o modelo.
No varejo, esse cenário é comum e, muitas vezes, invisível para quem lidera.
Lojas competem entre si por ranking.
Vendedores disputam clientes dentro da mesma operação.
Compras é pressionado por margem enquanto vendas é cobrado por volume.
Marketing gera campanhas que a operação não consegue sustentar.
O conflito não nasce do time: nasce da arquitetura de metas, incentivos e processos.
Cooperação não é discurso. É desenho de operação
Na fase final do experimento, os pesquisadores fizeram algo simples e poderoso: criaram objetivos comuns que só poderiam ser alcançados com a colaboração entre os grupos.
Não houve palestra motivacional.
Não houve cobrança emocional.
Houve um objetivo maior, real e inegociável.
O resultado foi imediato e o conflito perdeu força porque deixou de fazer sentido. No varejo, acontece exatamente o mesmo quando a empresa sai do modelo de “cada um por si” e passa a operar com visão sistêmica. Quando o resultado da loja depende do estoque certo, do preço bem definido, da operação organizada e do time alinhado, a cooperação deixa de ser opcional e vira estratégia.
O erro mais comum dos líderes no varejo
Muitos líderes tentam resolver conflitos depois que eles explodem; conversam, alinham expectativas, reforçam cultura, cobram maturidade. Tudo isso ajuda, mas é paliativo. O problema quase sempre está antes:
Está no desenho da meta.
No indicador mal escolhido.
No processo que premia o individual e pune o coletivo.
O Código Varejista nasce exatamente desse ponto: Não para romantizar cultura ou criar discursos bonitos, mas para ajudar varejistas a desenhar modelos de gestão que façam as pessoas colaborarem naturalmente. Porque quando o sistema é bem construído:
o time para de competir internamente
a loja ganha ritmo e previsibilidade
decisões deixam de ser emocionais e passam a ser estratégicas
Liderar no varejo é desenhar o jogo certo
Liderança no varejo não é controle excessivo. É arquitetura.
É decidir quais indicadores realmente importam.
É alinhar incentivos com o resultado do negócio, não com vaidades internas.
É garantir que todos saibam qual é o objetivo maior da operação.
Quando o modelo é claro, simples e justo, o comportamento acompanha. Esse é o propósito central do Código Varejista: traduzir conceitos complexos de gestão em estruturas práticas, que funcionam no dia a dia da loja, do estoque ao caixa, da liderança ao time de vendas.
Conclusão
Conflitos no varejo não são inevitáveis.; eles são, na maioria das vezes, sintomas de modelos mal desenhados. O experimento de Sherif deixa claro que, quando mudamos incentivos e criamos objetivos compartilhados, a cooperação emerge de forma consistente.
Varejo forte não é feito de times perfeitos, é feito de sistemas inteligentes, simples e bem conectados. No fim, liderança não é apagar conflitos: é construir modelos onde eles não precisam existir.
